Nuvem na cabeça

Na trilha, teve choro, teve solidão, teve também abraço insperado, luz entrando suave na floresta. Era confuso o caminho, pois não era caminho, era a cada hora uma decisão. E a cada uma delas, é que o caminho se revelava um pouco mais. Nada suficiente para ver mais que poucos metros adiante. Na cabeça, uma nuvem constante, um faro falho e uma fada invisível a sugerir passos. Então, percebi meus pés, minhas pernas, a força do meu abdômen. A respiração revelou-se uma fonte. Inspirei e, por um instante, me vi. No alto de um dos montes, sentei numa pedra grande, que tinha ares de quem, por muito vivido, sabia acolher todos os tipos. Atrás de mim, a mata fechada por onde eu vinha. Ela exalava um cheiro de formigas, abelhas, cigarras, besouros, pernilongos, aranhas, cobras. Dei-me conta que ela havia me apresentado pássaros variados, sementes de muitos formatos. Ela tinha me mostrado onde a água bebê  nasce e do que ela gosta de brincar. Também senti na pele a mensagem de rusticidade que cada espinho traz de presente para o necessário de cada um. Tinha muita memória em mim daquela trilha. Nada que eu pudesse contar ou ver dali daquela pedra. Mas, sentada naquele momento, eu pudi sentir o passado em sua presença. Eu era como a pedra, como a formiga, como a água-bebê. Não sabia de nada, só existia, só ia. E buscava, buscava um tanto que dava até preguiça. Mesmo com essa estranha mistura de pressa e preguiça, percebi eu tinha sim aproveitado tudo.
Mas eu não queria voltar, nem ficar na pedra, eu queria ir. Para onde? Para frente, para o lado, antes de tudo para outro lugar. Conhecer mais, me abrir para a vida. Dessa vez vou sem a nuvem na minha cabeça, pois ela acabou de chover. Agora eu posso ver tudo dentro de mim e do universo. A fada segue comigo.

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