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Francês

Estudo francês, pois é a raiz da qual eu mais sei e a que mais neguei. Neguei, talvez porque meu bisavô também a tenha negado de algum forma quando um dia decidiu vir aqui viver e nunca mais voltar. Talvez porque algo da França nele e no seu filho, Rennè, meu avô, também tenha morrido quando minha bisavó morreu ainda jovem. Não sei do que ela morreu. Mas sei que meu avô tinha em torno de 15 anos e eu podia ver a marca dessa dor quando o conheci com seus mais de 60 anos.  Sei que essa raiz também foi negada quando meu avô não pode tirar a cidadania por algum motivo militar sem sentido, e isso o feriu muito.  Quando a dor é grande, é melhor esquecer.  Mas também acho que a neguei, por não querer me identificar com o colonizador, que ajudou a construir o país, mas também a aprofundar a ferida do racismo e da injustiça social no Brasil. Mas diante de tudo, das dores dos antepassados e as minhas próprias questões identitárias, ainda assim, a França é mais contornada das minhas...

Como é esse amor?

Uma pergunta morava no centro da repetição daquele mantra: TUDO É AMOR. Mas como é esse amor? Como ele se parece? Quais são suas características? Percebo que normalmente associamos o amor a algo que nos faz feliz. No entanto, nada nos faz feliz o tempo todo. Mas, parece que consideramos como amor aquele sentimento que vamos desenvolvendo por pessoas, lugares, animais, situações, atividades, com as quais, no balanço, nos sentimos mais felizes do que tristes ou incomodados. No entanto, algo me diz que aquele amor do mantra está para além disso. Como seria a capacidade de amar e querer bem, muito bem, a tudo, incluindo àquele, àquela, àquilo que nos incomoda ou que, até mesmo, nos faz sofrer, como mais frequência do que nos faz bem? Como seria este amor? Que tipo de mente nasce desse amor? Que tipo de atitude pode se cultivar ali? Tenho a sensação de que este amor deve ser como um banho de luz, como encontrar a força insuperável do sol. Apesar disso, me parece que a atitude que deriva ...

Sobre o modo de vida capitalista

Puxo de dentro da folha uma palavra Tinha fome, rosto de raiva Eu recebi aquele impacto como o tapa que precisava viver pelo tempo que a deixei presa Presa dentro da folha como um choro contido um beijo suprimido Olho-a sabendo o que fiz As horas atrás de mim preenchidas daquele ritmo que açoita a vida Vejo no filme do tempo,  meus dedos se afastarem do brilho Ali onde represou a flor mais potente do meu ventre, do meu leite dos meus cabelos de gerações de vento Molho a palavra com saliva  e cuspo também Na cara desse sujeito que rouba meu tesão minha garra nossa revolução Não, não tem justificativa para ocupar assim tão invasivo o peito do existir Eu saio preciso mantra preciso grito lua mestre yogue preciso orixá água fria suor mar ar preciso desta palavra  que está presa no papel Sou eu quem a liberta É ela quem me liberta Vivo na pele a cura em processo da velha doença d...
Queria chorar a angústia do mundo em seus hospitais, em suas favelas, em suas idades e suas comorbidades. Queria chorar os corpos que não puderam ser velados. Chorar o medo que tive de perder meu pai, a saudade do meu amor, o cansaço das noites mal dormidas, o agradecimento por cada reza dedicada. Formar um grande rio salgado a encontro do mar. Um rio para diluir as pedras do coração. Queria poder abraçar meus colegas de trabalho como se fossem irmãos e dizer-lhes que partilho de suas ansiedades e sinceramente perguntar-lhes sobre suas famílias e sobre suas dificuldades nestes dias. Dar uma pausa no trabalho só para ser humana junto com eles. Temo que ainda precisaremos de mais tempo nesse estado para amolecer todos os corações.  Às vezes, tenho a impressão que as pessoas não querem sentir o que está acontecendo. Como se isso as fosse deixar mais vulneráveis. Para mim, não sentir é o que me enfraquece. Quando deixo o sentimento vir, percorro o rio que me leva até mim e lá consi...
Nada nunca está pronto. Nada igualmente está inacabado. Eu me limpo e me sujo. Vejo meu reflexo no espelho e sei que ele sabe pouco de mim. No meio da noite, no meio do dia, agora, ouço os insetos em suas perguntas e respostas que eu não entendo. Isso me ajuda a perceber que tenho um corpo com o qual percebo o mundo e a mim mesma. No entanto, sei que ele não consegue captar tudo. Assim como o espelho.

Nuvem na cabeça

Na trilha, teve choro, teve solidão, teve também abraço insperado, luz entrando suave na floresta. Era confuso o caminho, pois não era caminho, era a cada hora uma decisão. E a cada uma delas, é que o caminho se revelava um pouco mais. Nada suficiente para ver mais que poucos metros adiante. Na cabeça, uma nuvem constante, um faro falho e uma fada invisível a sugerir passos. Então, percebi meus pés, minhas pernas, a força do meu abdômen. A respiração revelou-se uma fonte. Inspirei e, por um instante, me vi. No alto de um dos montes, sentei numa pedra grande, que tinha ares de quem, por muito vivido, sabia acolher todos os tipos. Atrás de mim, a mata fechada por onde eu vinha. Ela exalava um cheiro de formigas, abelhas, cigarras, besouros, pernilongos, aranhas, cobras. Dei-me conta que ela havia me apresentado pássaros variados, sementes de muitos formatos. Ela tinha me mostrado onde a água bebê  nasce e do que ela gosta de brincar. Também senti na pele a mensagem de rusticidad...