Sobre o modo de vida capitalista
Puxo de dentro da folha
uma palavra
Tinha fome, rosto de raiva
Eu recebi aquele impacto
como o tapa que precisava viver
pelo tempo que a deixei presa
Presa dentro da folha
como um choro contido
um beijo suprimido
Olho-a sabendo o que fiz
As horas atrás de mim
preenchidas daquele ritmo
que açoita a vida
Vejo no filme do tempo,
meus dedos se afastarem do brilho
Ali onde represou a flor mais potente
do meu ventre, do meu leite
dos meus cabelos de gerações de vento
Molho a palavra com saliva
e cuspo também
Na cara desse sujeito
que rouba meu tesão
minha garra
nossa revolução
Não, não tem justificativa
para ocupar assim tão invasivo
o peito do existir
Eu saio
preciso mantra
preciso grito
lua
mestre yogue
preciso orixá
água fria
suor
mar
ar
preciso desta palavra
que está presa no papel
Sou eu quem a liberta
É ela quem me liberta
Vivo na pele a cura em processo
da velha doença do mundo
É preciso coragem para se curar
Eu grito alto minha coragem
E liberto todas as palavras de Deus:
as doces e as feias
Liberto a morte velha e preguiçosa
desse mundo que não sabe morrer
Assim, sofre mais no final
E custa tanto a renascer
Sangro com todos os pulmões
que, agora, desligam existências
Dou tapa na cara
de empresários e executivos
que sobem em bandeiras
achando que podem falar da vida
Estou com as mulheres,
com as índias e com os índios,
com as pretas e os pretos,
com as sem-terra, os sem-terra,
com as lésbicas, gays, trans,
todas as pessoas oprimidas
Estou com as outras espécies desse planeta
Cuspo a palavra que me cospe,
na cara, a urgência
já tão antiga,
tão falada,
tão cansada
Chega desta merda!
(Inspirações Rita Von Hunty, Suely Rolnik, a sociedade atual e minha própria condição).
(Inspirações Rita Von Hunty, Suely Rolnik, a sociedade atual e minha própria condição).
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